Benvindos!


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Neste blogue iremos encontrar (ou reencontrar) pedaços da imaginação e criatividade humana nas mais diversas formas e feitios - Livros, Banda desenhada, Cinema, TV, Jogos, ou qualquer outro formato.

Viajaremos no tempo, caçaremos vampiros e lobisomens, enfrentaremos marcianos, viajaremos até à lua, conheceremos super-heróis e muito mais.

AVISO IMPORTANTE: pode conter spoilers e, em ocasiões especiais, nozes.


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terça-feira, 29 de novembro de 2016

Defenders - Indefensible





Quem seguiu as aventuras da Liga da Justiça a partir de meados dos anos 80, após a Crise nas Terras Infinitas, o evento que remodelou o multiverso da DC, está familiarizado com o trabalho de um certo trio...

Keith Giffen, J.M. DeMateis e Kevin Maguire.

Rompendo com a seriedade que era emblema das aventuras dessa equipa, os membros desse grupo (acompanhados de outros cúmplices) recriaram a Liga num registo muito mais ligeiro, com humor muitas vezes absurdo embora sem deixar de manter uma dimensão... pode dizer-se épica, mesmo, de grandes aventuras, mas sem se levarem demasiado a sério.

Enquanto faziam com que a Liga enfrentasse ameaças mortais como o Homem Cinzento, também criaram epopeias como a da Liga da Justiça da Antártida ou das saídas à noite, para ir para a farra, dos membros alienígenas da Liga (J'onn, Gnort e Kilowogg, estou-vos a ver!). Ah, não esquecendo que apresentaram ao Martian Manhunter as bolachas Oreo.
Anos mais tarde, ainda tiveram uma mini comeback tour na forma das mini-séries "Formerly Known as Justice League" e "I Can't Believe It's Not The Justice League".

Podia estender-me por essas façanhas fora, mas não é disso que quero falar aqui hoje.

Em 2005, a gangue reuniu-se para dar um tratamento semelhante não a outro grupo da DC, mas a um da Marvel.

Neste caso, o "não grupo" dos Defensores (ou Defenders, como preferirem). Para evitar confusão com o grupo homónimo que irá ter em breve uma série na Netflix, e para quem não sabe e tem preguiça de googlar, passo a explicar:

Os Defensores são uma espécie de grupo informal (ou seja, não tem o estatuto de grupo fixo como os Vingadores ou os X-Men), normalmente composto por membros "à parte" (para não chamar "marginais"), sendo o núcleo duro o Dr. Estranho, o Hulk, o Namor e o Surfista Prateado.
Reunindo-se essencialmente apenas em momentos de crise que assim o exigiam, juntavam-se com alguma animosidade, despachavam a ameaça e seguiam as suas vidas.

As relações entre o grupo nunca foram grande coisa...

Confesso que as poucas aventuras que vi com eles foram em histórias do Hulk dos anos 90, e efectivamente querelavam um bocado entre si.

...como de resto fica bem claro nestes diálogos. Acompanhados
do traço super-expressivo de Maguire, valem ouro.

Chega 2005, e eis que o trio de criadores acima mencionados os reúne mais uma vez, desta feita para enfrentar a ameaça conjunta de Dormammu (arqui-inimigo do Dr. Estranho) e a sua irmã, Umar.
Os reúne, por assim dizer, já que para começar, o Surfista nem sequer se junta aos outros, passando toda a história numa praia a filosofar com surfistas desmiolados estereotípicos e não chega a fazer a ponta dum chavelho.

Yep, o "quarto mosqueteiro" está lá just for show.


Já os outros 3 passam as passas do Algarve a enfrentar o outro duo, sendo que Dormammu consegue roubar os poderes de Eternidade, tornando-se omnipotente e recriando a realidade, com versões retorcidas dos heróis Marvel (algumas bem interessantes), incluindo o próprio Dr. Estranho. Manipulado, é claro, pela irmã (que se entretém a ter sexo com o Hulk e a ameaçar Banner que o mata se não se transformar, algo que não consegue porque ficou demasiado relaxado). Eventualmente, acaba por perder o controlo graças aos artifícios de Estranho e o universo é salvo.

Na realidade, a série pouco impacto tem em termos de cânone, sendo totalmente autocontida e não tendo impacto em outras histórias. No entanto, é um exercício divertido de quezílias entre heróis (muitas!), humor um bocado parvo (reconheço, não é para todos - muita gente não gostou de ver Dormammu a queixar-se à irmã sobre de quem é que os pais gostavam mais) e principalmente, das expressões faciais a la Maguire, que por si só fazem valer a leitura.

Portanto, é mais um passatempo que uma história, mas serve para entreter, e, para quem se deliciou com as desventuras da Liga há muitos anos, para matar saudades da equipa...

Não é todos os dias que vemos a faceta mais... vulnerável de
um overlord transdimensional!

sexta-feira, 29 de abril de 2016

All-Star Batman & Robin The Boy Wonder

Sabem como é quando não conseguem decidir se gostam ou não de alguma coisa?
Isso é algo que acontece ocasionalmente a qualquer um. A mim já me aconteceu algumas vezes, por exemplo, ainda hoje não percebi se gostei do filme "Ichi The Killer" ou não. E, com esta série do Batman passa-se precisamente o mesmo.
A premissa era óptima -  tal como se passara com o excelente All-Star Superman, uma mini-série fora da cronologia principal, criada por Frank Miller, autor dos lendários "Year One" e "The Dark Knight Returns" (duas obras de referência deste herói) e ilustrada por Jim Lee, também este já experiente no homem-morcego.

O que correu mal, então?

A série tinha tudo para gerar muitos "Wow", mas creio que a reacção prevalente foi mesmo o "WTF?".
Capa do TPB que reúne os 9
primeiros números

Miller tentou, uma vez mais, mostrar um Batman diferente, e conseguiu. O problema é que o diferente, neste caso, não significou necessariamente melhor. 
Eu explico: temos um Batman ainda nos seus primórdios, mas que pouco tem a ver com o de "Year one".

É um Batman que parece deleitar-se demais com a violência com que combate os criminosos, rindo histericamente durante as lutas; é um Batman que, para iniciar o treino do Robin, o prende na caverna (depois de virtualmente o raptar) e o tenta obrigar a comer ratazanas para sobreviver. 

Outras coisas que parecem fora do sítio estão lá, tal como a Black Canarybarmaid (e a distribuir porrada no bar), bem como o fling entre estes heróis ou uma Wonder Woman "feminazi".

a servir de

Pois é, aqui o "diferente" torna-se apenas bizarro, e fica-se com a ideia que os heróis andam a abusar de substâncias ao longo da história e que estamos perante um desfile de violência gratuita.

A arte de Jim Lee, por outro lado, mantém-se firme, e é uma mais valia neste caso, bem como pequenos detalhes engraçados, tais como uma proto-Liga da Justiça que incorpora um Super-Homem que ainda não descobriu que pode voar (por isso atravessa o oceano a correr à superfície da água) ou um encontro com o Lanterna Verde Hal Jordan em que Batman e Robin se defendem... pintando-se de amarelo.

A séria nunca foi totalmente encerrada, tendo entrado em hiato após o nº 10, e nunca mais sendo retomada.
Porque seria...?

Se não fosse tão excessiva, as boas ideias tê-la-iam tornado um êxito, tenho a certeza. Mas da maneira que correu...

Já vos disse que ainda não consegui decidir se gosto desta série ou não?

"I'm the goddman Batman" - para bem ou para mal, isto ficou famoso...

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

One-shots de Natal na BD - Dois casos

Como é hábito, no fim do ano gosto de apresentar alguma coisa relacionada com o Natal.

Aproveitei uns dias de férias para pôr algumas leituras de BD em dia, e descobri duas peças engraçadas, por razões diferentes. Como me apetece falar de ambas e tenho preguiça de fazer dois posts, vou fazer como com o Halloween e apresentar um 2-em-1. O que até faz mais sentido, dado que são duas BDs.

A primeira é (e uma vez mais imito o post do Halloween) um one-shot dos Caça-Fantasmas da IDW chamado "Past, Present and Future".
"Oh, outra cena dos Caça-Fantasmas?" perguntam vocês.
Sim, respondo eu. E desta feita, de Natal. Mas em abono da verdade, a história é engraçada. Sendo um conto dos Ghostbusters, a temática vai, obviamente, para fantasmas, e que fantasmas mais natalícios que os espíritos Dickensianos do Natal Passado, Natal Presente e Natal Futuro?
A história não está nada mal concebida. Os nossos heróis são contratados por um bilionário que anualmente é perseguido pelos fantasmas de Natal. Note-se que o nosso pseudo-Ebenezer considera-se um gajo realizado e não tenciona mudar em nada os seus modos gananciosos. Só quer livrar-se do frete de gramar com as espectrais visitas natalícias.
Para o efeito, contrata então os nossos Peter, Ray e Egon (aparentemente o Winston está como tarefeiro subcontratado), oferecendo até 4 milhões de dólares pela remoção dos fantasmas indesejados.
Contagiados pela ganância, vão removendo os espíritos, mas os váríos elementos vão sendo eliminados, até só sobrar o Peter Venkman (ironicamente, o membro mais ganancioso da equipa), que num momento de epifânia, descobre a verdade: o bilionário está possuído pelo Espírito do Natal Presente, e contratou a equipa para se ver livre dos seus pares, já que quer gozar a vida (emprestada) à grande e à francesa e os outros fantasmas querem que ele volte ao trabalho.
No fim, conseguem exorcizar o espírito e o bilionário volta ao seu normal agradável, referindo que os vai processar de tal modo que eles vão sangrar por orifícios que nem sabiam que tinham. Clássico espírito da época, hã?




A outra peça é um pouco mais hardcore...
O The Lobo Paramilitary Christmas Special, da DC Comics, é de certo modo, a antítese dos tradicionais especiais de Natal.
Basta ter o main man Lobo como protagonista e ser da autoria do Keith Giffen, um dos escritores de comics com um sentido de humor mais marado de sempre.
Aqui temos Lobo a aceitar um servicinho, contratado pelo Coelho da Páscoa: abater o Pai Natal, que se tornou demasiado poderoso nos últimos tempos.
Assim, o mercenário vai até ao Norte, onde fica a fortaleza do velho risonho, descrito com mestria da seguinte forma:
"A brutal dictator repeatedly slammed by Amnesty International, he ran his empire with an Iron Fist. Planned malnutrition kept his army small in stature but fighting fit... and fierce as ferrets! Only highly sophisticated public relations techniques -- and a once a year charity splurge -- kept his image smooth with the public. «Jolly Santa Claus» the world called him. But his slaves knew him better as Kris «Crusher» Kringle!".
Um mimo. Este não é o Pai Natal da Coca-cola!
Para quem conhece Lobo, o desfecho é prevísivel: montes de violência gratuita, gestos obscenos e elfos massacrados, até ao confronto com Claus... que não acaba bem para o velho.
A história termina com mais violência (como seria de esperar), com Lobo a distribuir "presentes" (bombas de hidrogénio) com o trenó puxado por renas muito aterrorizadas...
Humor negro natalício (ou anti-natalício, será mais certo). Não é para todos os gostos, decididamente, mas é para o meu...

Bem, se gostarem do género, há ainda uma versão em filme no Youtube, que deixo como prenda de despedida:



quarta-feira, 22 de abril de 2015

Death Of The Family



Death of the Family é um ensaio em horror, loucura e obsessão.

Esta saga, cujo nome é reminiscente de uma outra, também envolvendo o Joker, chamada A Death in the Family (a infame história em que Joker mata Jason Todd, o segundo Robin), é um exemplo de por que é que Scott Snyder se tornou um dos escritores de BD mais relevantes da actualidade.

Temos um Joker totalmente insano, imprevísivel e como tal, aterrorizador, a provocar morte e miséria com base numa ideia delirante. Conseguiu transmitir-me a sensação de desconforto com a mera presença do personagem como senti quando vi a actuação de Heath Ledger a interpretar a sua versão deste louco.

A história passa-se um ano após o desaparecimento do Joker na série Detective Comics, no mesmo evento em que o criminoso fez com que lhe removessem a cara, deixando-a para trás como um troféu, ou melhor ainda, como um cartão de visita.

Só isso já é perturbador que baste. Mas, então, Joker regressa, provocando um blackout na central da polícia de Gotham, apenas para invadir a mesma, matar 19 polícias só com as mãos e recuperar a sua cara, que está conservada em frio como prova. Esta sequência é desesperante, feita do ponto de vista de Jim Gordon, que, completamente às escuras, apenas ouve os protestos, ameaças e gritos dos seus agentes a serem sequencialmente extintos.

Mais tarde, Joker ataca a "Bat-Família" (Os Robins, Batgirl, Red Hood, Nightwing e mesmo a Catwoman e Alfred - este último pela sua associação à Batman, Inc). O porquê?

Joker decidiu que os companheiros e aliados de Batman o enfraquecem. Vê Batman como um rei, e a si próprio como o bobo da corte, aquele que diz as verdades inconvenientes. E a verdade é que Batman, ao apoiar-se na "família", se tornou mais fraco, aos olhos de Joker, o que este não tolera.

Assim, vai perseguir os vários membros e capturá-los, com vista a provocar a sua mutilação e morte num evento final, com Batman a assistir. Pelo caminho, ficam as insinuações que descobriu as suas identidades secretas, algo em que Batman não acredita. As várias histórias da saga (a principal escrita por Snyder e ilustrada por Greg Capullo, as restantes por outros autores, dado serem tie-ins nos vários títulos da Bat-família) também criam essa dúvida, mas em última instância, presume-se que é mesmo bluff do Joker. Inclusivamente, segundo o Cavaleiro das Trevas, na sua loucura, Joker não quer saber quem são na realidade Batman e companhia, apenas as suas identidades como heróis são válidas e apenas essas interessam. O que não o impede de torturá-los com insinuações de ataques às suas famílias (ou no caso de Batgirl, ao ameaçar-lhe a mãe mesmo sem saber de quem se trata), provocando uma tensão constante.

O confronto com Joker no Asilo Arkham é outro ponto alto, com as torturas aos guardas a mostrar a insanidade assustadora do vilão, que vê nisso uma oferta a um Batman pelo qual tem uma relação doentia de amor-ódio que nos deixa desconfortáveis. Esses aspectos não são tão patentes nos títulos tie-in, mas os mesmos não desiludem, cada qual tenta capturar os horrores de Joker à sua maneira.

Ah, e o meu detalhe favorito: Joker usa a sua própria cara como se fosse uma máscara, suspensa com ganchos e fivelas. Pondo de lado o irrealismo de tal façanha, é um detalhe morbidamente fascinante, que cada autor aproveita à sua maneira, com maior ou menor sucesso. Indo mesmo ao detalhe de a pele/carne se começar a desagregar e estar rodeada de moscas.

Sem querer acrescentar mais informação, dado que este post já é um spoiler enorme, quero acabar só realçando e elogiando a montanha-russa psicológica que é esta história. Uma que mostra que, mais que o Batman, o Joker pode ser uma personagem brilhante, que nos provoca mal-estar apenas por sabermos que anda por aí.
Um Joker psicótico a sério, muito longe da versão apatetada da BD dos anos 60... que culminou com Cesar Romero a interpretar o personagem com o bigode pintado de branco só porque não o quis rapar...

Um rosto que nem uma mãe poderia amar...



sábado, 24 de janeiro de 2015

Demolidor - O Filme



Hoje em dia são lançados vários filmes sobre super-heróis todos os anos, especialmente retratando personagens da Marvel, uns com maior, outros com menor sucesso, mas habitualmente garantindo bastantes receitas de bilheteira.

Embora haja filmes de super-heróis deste universo anteriores, este fenómeno começou a evidenciar-se no final dos anos 90, com Blade, e quase a seguir com o primeiro filme dos X-Men, e passado algum tempo com o primeiro filme da trilogia Spider-Man de Sam Raimi.

Mas nem todos os filmes, como disse, se têm saído tão bem. Alguns ficam pelo caminho, como foi o caso deste... Tendo-o visto quando andou no cinema, fiquei um bocado desgostoso. Recentemente, adquiri o DVD em segunda mão numa feirinha de usados e resolvi revê-lo para tentar perceber porquê.

Então, o que se passa com o Demolidor?

Muita coisa.

A história é baseada nos arcos escritos por Frank Miller, o que à partida augurava boas coisas, dado que foi ele que escreveu alguns arcos clássicos do personagem, que o tornou inimigo do Rei do Crime (um inimigo tradicional do Homem-Aranha) e que criou Elektra, outra personagem fundamental na saga do herói.
O que correu mal? Em pouco mais de 90 minutos, para meter origem e ascenção do herói, encontro e romance com Elektra, confrontos com Bullseye e o próprio Kingpin (Rei do Crime), o resultado final foi uma história superficial e apressada.

Para além disso, o filme é apresentado com atmosfera de film noir, o que é à partida boa ideia, por múltiplas razões (entre as quais o protagonista ser cego) mas que não chega a funcionar tão bem como isso (pelo menos pareceu-me uma atmosfera forçada).

Ao contrário do que muitos possam dizer, não acho que este
cavalheiro fosse o problema maior com o filme...
...já este aqui, é outra história.

A actuação também parece forçada. Aqui muitos dirão logo, "Ah, pois, com o Ben Affleck" e tal e coisa. Pessoalmente, nem achei que fosse o pior (sim, sou um daqueles que não entrou em pânico com o anúncio que ele vai ser o próximo Batman no cinema); achei sim que o Colin Farrell era um Bullseye fingidamente instável (e continuo sem perceber se puseram o personagem irlandês só para fazer a vontade ao actor) e pouco convincente, a Jennifer Garner não conseguia transmitir a dureza da Elektra e o entretanto falecido Michael Clarke Duncan foi muito subaproveitado. Quando vi o filme no cinema há mais de 10 anos achei pura e simplesmente estranho ter um Kingpin negro (agora, com a tradição do Samuel Jackson como Nick Fury, nem piscaria os olhos), apenas pela mudança radical. E o fulano era um grande actor, basta ver o papel fantástico dele no The Green Mile. Só que ali, bem... Era só um gajo grande que fumava charuto e fazia umas ameaças, sendo o seu momento alto a cena de pancadaria com o Demolidor, o que nem chegou a ser um momento verdadeiramente alto.

O que nos leva a outra coisa que achei irritante. As cenas de pancadaria. Pareciam, principalmente no início do filme, meio humorísticas, pela teatralidade toda envolvida (especialmente a do Murdock em miúdo contra os rufias). Ao longo do filme pareceram aliviar um pouco e ficar menos más. A minha dúvida é se melhoraram ou eu me fui habituando...

Exemplo do tipo de cena que tirou a credibilidade ao filme.

Nem tudo é mau no filme, claro. Os fatos e look dos personagens era mais realista e menos "day-glow", o que acho sempre uma opção acertada, e foi um filme cheio de cameos/easter eggs. Além da clássica aparição de Stan Lee, tivemos uma brevíssima de Frank Miller (uma das vítimas do Bullseye) e de Kevin Smith (que também escreveu umas coisas com o personagem), para além de referências em todo o lado a artistas e escritores que contribuiram para o personagem (como o caso dos John Romita pai e filho, entre outros).

Dito isto, não é um filme terrivelmente mau, mas só serve quando temos hora e meia em que não sabemos mesmo em que havemos de gastar. A prova é que foi um dos poucos filmes da Marvel que não deu origem a sequelas/séries/crossovers, embora tenha gerado o spin-off "Elektra". Mas esse já é outro assunto...

O Kingpin. Uma oportunidade de brilhar desperdiçada.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Mephisto Versus...


E para terminar o ano em beleza, um salto rápido ao baú das velharias.

O nome "Mefisto" deve fazer soar algumas campaínhas, não? Um dos nomes atribuídos ao Diabo, neste caso como diminutivo de Mefistófeles... Um demónio com tendência a fazer ofertas em troca da alma dos incautos, patente também na literatura, mais concretamente, nas várias versões de Fausto.

Pois bem, para quem não sabe, a Marvel tem a sua própria versão deste personagem, Mephisto. Embora este não seja oficialmente o Diabo (Satanás) mas sim uma entidade malévola extradimensional que colecciona almas no seu reino/dimensão, o vermelhão gosta de se fazer passar pelo Diabo da tradição cristã (bem como por outros demónios criados por humanos), aproveitando-se do mito a seu favor.
É uma criatura estupidamente poderosa, mas como todas as entidades cósmicas, tem os seus limites. Mais concretamente, não pode manter uma alma no seu reino que não deva estar lá.

Mephisto é conhecido por atormentar alguns heróis preferencialmente, como o Surfista Prateado (por possuir uma alma extremamente pura) e Thor (por cobiçar a alma de um deus para a sua colecção), embora invariavelmente acabe por falhar nos seus intentos. Por outro lado, foi o responsável pelo surgimento do Ghost Rider, quando vigarizou Johnny Blaze, fazendo passar-se pelo próprio Satã e por destruir (literalmente) o casamento do Homem-Aranha, eliminando toda a existência dele (do casamento, não do Super-Herói).

Nesta mini-série, publicada pela Marvel em finais dos anos 80, escrita por Al Milgrom e ilustrada pelo mítico John Buscema, podemos seguir os confrontos seriados de Mephisto com quatro das super-equipas mais importantes da época: o Quarteto Fantástico, o X-Factor (na sua versão inicial de supostos caçadores de mutantes), os X-Men e os Vingadores.

Através de truques, enganos e manipulação, sem deixar de se envolver em momentos de confronto físico, o demónio vai procurando obter almas cada vez mais poderosas, fazendo trocas de umas por outras, até tentar obter a de Thor. Isto, numa época em que o Deus do Trovão fora amaldiçoado por Hela, estando impedido de morrer mas com o esqueleto tão frágil que só se aguentava graças a uma armadura especial.
Da mesma maneira que Mephisto vai enganando os heróis para se apoderar (indevidamente) das almas de Susan Richards, Jean Grey e Rogue até fazer o seu ataque final a Thor, também o argumentista nos "finta": toda a história é baseada na premissa que que Mephisto quer coleccionar a alma de um deus, Thor... apenas para no fim ser revelado que apenas era fogo de vista, e que tudo o que se passou era um truque para no futuro enfraquecer Hela (a deusa da Morte Asgardiana) e aumentar o seu próprio poder.
Um estratagema digno do mestre das mentiras.

A série nasceu da vontade de Al Milgrom de explorar um pouco mais o personagem, que normalmente aparecia como antagonista pontual de alguns heróis, e que aqui é, de facto, o protagonista, apesar de ser o vilão. A escrita é engraçada, com alguns detalhes divertidos, como o argumento usado para "condenar" Reed Richards ao inferno ou o uso por parte do demónio de embalagens protectoras para defender algumas almas coleccionáveis mais raras, como fazer os adeptos de BD. Até há uma referência meio perdida pelo meio à história de Fausto. Por vezes, porém, a história torna-se um pouco cansativa, principalmente pelas repetições de Mephisto relativamente à situação (julgo que com o objectivo de ajudar os leitores a recapitular o que se passava de um número da mini-série para o outro).
No geral, é uma história à anos 80, bem elaborada mas por vezes massuda. Vale mais pelo twist final e pelos pequenos detalhes com graça que vão surgindo.
O ponto mais forte é mesmo a arte de Buscema - detalhada, fina e sombria onde necessário sem se tornar pesada, e que captura na perfeição a teatralidade própria do personagem principal.

A história já foi reeditada em inglês pelo menos numa ocasião; eu li-a originalmente no início dos anos 90, editada pela Abril, em versão brasileira. Infelizmente, levei anos a perceber como o formato reduzido efectivamente prejudicou a arte, que se aprecia melhor no formato americano maior.

Mas, como mais de 20 anos depois, pude lê-la como devia ser, tudo acabou bem...

Edição brasileira de 1991. Pertencia a uma série do que se poderia
chamar "mini TPBs", a colecção "Épicos Marvel"


terça-feira, 28 de outubro de 2014

Iron Man Noir

Na vertente multiverso da Marvel, foi criada a série "Noir", que conta com vários títulos que apresentam versões dos heróis reimaginados como personagens noir típicas de filmes e pulps dos anos 30-40,.

Iron Man Noir é uma dessas séries. Escrita por Scott Snyder (famoso pelo seu trabalho na DC Comics na série American Vampire, em histórias do Batman e recentemente também no relançamento do Swamp Thing) e ilustrada por Manuel Garcia, conta as peripécias de Anthony Stark, industrial e aventureiro, herdeiro do desaparecido herói Howard Stark, na década de 1930, durante a ascenção da Alemanha Nazi.

Tony tem uma lesão cardíaca e usa tecnologia repulsora (tal como a sua contraparte do universo principal, pelo menos numa versão mais anos 30) e procura uma fonte de energia que permita manter eficazmente o aparelho eléctrico que lhe mantém o coração a funcionar.

Durante uma expedição, Tony é traído pela sua companheira Gialetta Nefaria, que foge com uma máscara de Jade à qual o seu rosto fica colado num incêndio (tornando-se assim a versão deste universo da Madame Masque, embora nunca seja tratada por esse nome). Gialetta é na realidade aliada dos Nazis Heinrich Zemo e Wolfgang von Strucker e abandona Stark para morrer, após executarem Virgil Munsey, outro companheiro de aventuras de Tony (e que serve de cronista das suas aventuras).

Quando Tony se salva com a ajuda de Jim Rhodes, descobre que Nefaria deixou para trás, muito a propósito, informação sobre a localização da civilização perdida da Atlântida. Ora, para além da aventura apelar ao nosso herói, a Atlântida era repositório de um metal supercondutor e acumulador de energia, o mítico Orichalcum (ou Oricalco, em português).

Vendo uma hipótese não só de impedir o acesso dos Nazis a essa fonte de energia como também de resolver os seus problemas de coração (não no sentido romântico), Stark monta nova expedição, com o seu leal parceiro Jim Rhodes e acompanhado também de Pepper Potts (a sua nova cronista) e de Namor (que aqui é um pirata de um grupo que corta as orelhas para ficar com elas afiadas como a barbatana dorsal e possui uma embarcação lendária - Dorma - disfarçada de barco velho).

Os heróis encontram a Atlântida e o Oricalco, embora rapidamente se revele que tal foi uma armadilha montada pelos Nazis para localizarem mais rapidamente o metal (presente num tridente de Neptuno, que os Nazis roubam).

Stark e Rhodes envergam então duas armaduras de combate voadoras (análogas às de Iron Man e War Machine) e vão enfrentar os vilões. O plot twist aqui é a revelação que Zemo é na realidade Howard Stark, capturado pelos alemães e submetido a lavagem cerebral, com uma mistura de Zolpidem, Etanol, Metilcloreto e Ofentonil... ou ZEMO, de onde vem o nome.

Após o conflito final, em que derrotam o grupo de Nazis e resgatam Pepper, que fora feita prisioneira, Stark decide passar a usar os seus talentos e meios para ajudar a humanidade em vez de ter apenas aventuras para entretenimento.

Devo dizer que esta história me deixou sentimentos ambivalentes; por um lado está bem escrita e com alguns detalhes giros na adaptação, para além dos que já referi - por exemplo, "Happy Hogan", em vez do tradicional aliado de Tony Stark, é um submarino, e Jarvis é o seu mentor e ajudante oficinal em vez de um mordomo.
Por outro lado, sabe a pouco, e parece ter pouca história. Gostaria de ter visto mais Iron Man e menos Stark... Até porque as armaduras fazem lembrar, muito apropriadamente, versões blindadas e armadas do Rocketeer, outro herói que não destoaria neste ciclo de histórias.
A arte não é má, mas estando habituado a desenhos mais... sei lá? "Homem-de-Ferrescos"? como os de Salvador Larroca, no ciclo de Matt Fraction, estes pareciam um bocado orgânicos demais - até antiquados.

Em todo o caso, é um álbum de BD que vale a pena ver, quanto mais não seja para uma versão alternativa do "Cabeça de Lata" favorito de muita gente.


segunda-feira, 28 de julho de 2014

Days of Future Past


A propósito do filme X-Men: Days of Future Past, de Bryan Singer, que andou recentemente nos cinemas, apeteceu-me rever o material de origem, a história homónima dos X-Men, originalmente publicada em Uncanny X-Men #141 e #142 e em que o filme foi inspirado.

E digo "inspirado", porque acaba por ter tantas diferenças que não se pode dizer ser uma adaptação directa. Também não pretendo estar a fazer uma comparação muito detalhada, vou antes falar da história de BD (OK, apontarei algumas diferenças) e quem quiser que a compare mais aturadamente com o filme.

Então, para situar:
Capa do número 141. Uma das capas mais imitadas de sempre.
O ano era 1981 e os X-Men atravessavam uma fase complicada, às mãos de Chris Claremont e John Byrne, que estavam a revolucionar a equipa mutante. Ainda mal recompostos dos eventos da Dark Phoenix Saga, em que tinham (aparentemente) perdido a Jean Grey de vez, e com o abandono recente da equipa por parte do Cyclops, a equipa era então liderada por uma ainda relativamente pouco experiente Storm, tendo como restantes membros Wolverine, Colossus, Nightcrawler, Angel e a caloira Sprite (o nome de código de Kitty Pride antes de se tornar Shadowcat).

Esta última é o ponto fulcral da história, já que recebe a sua consciência vinda do futuro, uma vez que é o único membro da equipa que ainda não tem treino de resistência psíquica (ao contrário do filme, em que é Wolverine quem dá o salto para trás). Assim, Kitty recebe a sua mente futura, numa troca de consciências, e passa a ser Kate, o nome pelo qual iria responder no então longínquo ano de 2013, altura em que se passa a outra parte da história.
E é um 2013 muito distópico: os EUA estão controlados pelos robôs Sentinelas, que se preparam para tentar estender o seu domínio ao resto do mundo, o que a acontecer, irá desencadear um armagedão nuclear, já que o resto do planeta não tem intenções de ficar sob o controle deles.
E como chegaram as coisas a esse ponto? Em 1980 (ano em que se passa a história), a nova encarnação da Irmandade de Mutantes, liderada por Mystique, assassina um senador, Robert Kelly, que pretendia impôr legislação restritiva à liberdade dos mutantes, fazendo dele um exemplo (algo semelhante ao que Mystique queria fazer no filme, assassinado Bolivar Trask). Contudo, o seu plano saiu pela culatra e tudo o que conseguiu foi a reactivação dos Sentinelas, que passaram a caçar não só mutantes, como eventualmente todos os outros superseres, que são levados praticamente ao extermínio, estando os sobreviventes confinados a campos de concentração (de onde Kate é lançada para o passado, num plano fomentado por Magneto, nessa fase aliado dos X-Men sobreviventes).
"Todos morrem". Dramáticos como
sempre...
Mas não só, todos os humanos com potencial para gerar mutantes são também supervisionados e impedidos de procriar; numa extrapolação da sua programação inicial, os Sentinelas resolveram que a melhor maneira de levar a cabo a erradicação mutante era assumir o controlo dos EUA e, mais tarde, dos restantes países, o que levou ao ponto onde começa a parte futura da história. Alguns países já estão a ter problemas (implicitamente) como é o caso do Canadá, onde têm um Exército de Resistência que conta com a participação do Logan futuro.

A história passa-se então em duas frentes: 1980, em que os X-Men protegem o senador, e 2013, em que os mutantes sobreviventes tentam destruir um quartel dos Sentinelas e protelar o eventual conflito mundial.
E, embora a Irmandade seja derrotada e o senador Kelly seja salvo, mesmo assim o dano foi feito, terminando a história com o governo americano a ponderar soluções para o "problema mutante"... Restando apenas esperar que as acções dos X-Men tenham sido suficientemente significativas para mudar a história para melhor. 

Este story arc, embora curto, teve bastante impacto, especialmente por criar o "futuro dos Sentinelas", que serviu da base a diversas outras histórias nas sagas dos X-Men (e não só), dando ênfase ao recém-criado senador Kelly, introduzindo a personagem de Rachel Summers e abrindo caminho à criação de outros, como Nimrod e Bastion.
É também difícil não comparar esta história à da saga Terminator: em ambas temos personagens que fogem a um futuro distópico (ou mesmo pós-apocalíptico) em que máquinas controlam o seu meio e tentam erradicá-los, fazendo uma viagem atípica e tentando salvar personagens chave que modificam a história.
Há mesmo páginas inteiras na net a discutir se os comics influenciaram o filme ou se é só uma lenda urbana.

A edição brasileira onde li a história
pela primeira vez.
Nos EUA, a história foi republicada várias vezes em separado ou em antologias (a mais recente uma edição omnibus com todo o material do "futuro dos Sentinelas"); em Portugal chegou em versão brasileira através da editora Abril (inclusivamente na forma de um "X-Men Especial" a que tive o prazer de deitar as mãos via alfarrabista há muitos anos, e onde fazem a comparação com o Terminator, apesar de na época eu ficar momentaneamente baralhado por não saber o que era "O Exterminador do Futuro"), e faz também parte do calendário de lançamentos da série de BD da Marvel da colecção do jornal Público, a ser editada este ano.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Mystery Men - Os Homens Misteriosos

Um dos posters do filme
 


Captain Amazing. Herói
ou peão corporativista?

Champion City é uma cidade com o crime sob controlo. O responsável por isso? O maior herói da cidade, Captain Amazing (Capitão Maravilha), que deu cabo de todos os grandes vilões: estão presos, internados, mortos ou desaparecidos.
 
Ficaram  apenas bandidos de segunda, que mal dão para ocupar o grande herói, que os neutraliza em questão de minutos sempre que tentam mostrar as suas fuças malfazejas.

Ou seja, já não tem desafios.

 
 
Bem, já no que toca aos três wannabes The Shoveler, The Blue Raja e Mr. Furious... a coisa muda de figura.
Estes três super-heróis aspirantes não conseguem impedir sequer um assalto, não obstante os seus fabulosos talentos:

- o Shoveler (Pázada) maneja a sua pá como mais ninguém consegue, um talento que procura usar sempre para benefício da sociedade;
 
O Shoveler, pronto para a acção.
- o Blue Raja (Rajá Azul), com o seu fato multicolorido espampanante e que não tem um bocadinho de azul, falando com o seu sotaque britânico simulado, é o mestre da prataria e arremessa colheres e garfos - nunca facas, pois como ele mesmo diz, não é nenhum faquir;

O Blue Raja e as suas signature weapons

 
- o Mr. Furious (Senhor Furioso), bem, enfurece-se.

Mr. Furious. Está tudo dito.
 
 
O trio de amigos tenta combater o crime, embora de modo geral, acabe por levar porrada da grossa e por ir carpir mágoas para o diner local, onde são acossados por um quarto elemento - o Spleen (Cheirete), que como resultado de ter sido amaldiçoado por uma cigana, tem um ar doentio e é uma arma química com duas pernas, com as suas flatulências activadas pelo tradicional "pull my finger".
 
Casanova Frankenstein. Sociopata,
mas com classe.
 
Entretanto, como tem de mostrar resultados perante os seus patrocinadores, Captain Amazing usa o seu nome e a influência da sua identidade civil (o bilionário Lance Hunt) para conseguir soltar do asilo para insanos o seu némesis Casanova Frankenstein (não, não tem nada a ver com o mulherengo nem com o cientista da história de Shelley), que é o último dos grandes vilões.
 
Infelizmente, nem tudo corre como o herói contava, e ele acaba preso na mansão de Casanova, o qual pretende matá-lo e destruir a cidade com um raio psychofrakulator (acho que é assim que se escreve!) que tem o efeito de fazer rebentar as cabeças das pessoas atingidas.


Duas gerações de Bowlers.
Cabe então aos wannabes salvar o Amazing. Vão começar a recrutar pessoas para o grupo, o que não corre muito bem - aparecem milhentos candidatos, mas... entre a PMS Avenger, o Pencilhead + Son of Pencilhead, entre outros cromos que tais, parece não haver muita esperança. Acabam por se lhes juntar, no entanto, o Invisible Boy (Rapaz Invisível), que fica invisível desde que ninguém esteja a olhar para ele e a Bowler (Boladora), filha do Carmine The Bowler, um antigo herói assassinado, e que tem com ela uma bola de bowling assombrada que contém o crânio do pai.

Doc Heller a trabalhar no arsenal.
 
Apoiados pelo Doc Heller, fabricante de armas não letais como o Furacão Enlatado e o Encolhedor de Roupa e treinados pelo Sphinx (Esfinge), um indivíduo que além de desmontar armas com a mente é Terrivelmente Misterioso (ser apenas misterioso não lhe basta), vão lançar-se na sua demanda. Que corre um bocado mal, já que acabam por matar acidentalmente o Amazing durante a missão de salvamento.
 
Por fim, acabam por assumir o manto de verdadeiros heróis e derrotar Casanova e os seus múltiplos associados... ficando ainda a querelar sobre o nome do grupo, quando a imprensa os entrevista.

O grupo preparado para a investida final. Da esquerda para a direita: Bowler, Invisible
Boy, Sphinx, Shoveler, Spleen, Mister Furious e Blue Raja
 
 
Este filme, lançado em 1999 e muito vagamente baseado na série de BD "Flaming Carrot", levou um bocado de porrada da crítica, o que acho francamente injusto.
Foi acusado, na generalidade, de ser um filme de super-heróis fraquinho.
 
Na realidade, é um filme de super-heróis que não se leva demasiado a sério - é uma paródia mas também uma homenagem ao género. Mas essencialmente uma paródia.
 
Tem uma série de conceitos divertidos - a começar pelos heróis em si (alguns dos quais pescados da tal BD), sendo o meu favorito o Blue Raja. Há que admirar um tipo que dispara colheres e garfos e pretende combater o crime dessa maneira; também acho impagável o Invisible Boy, principalmente porque ele ficava mesmo invisível desde que ninguém o estivesse a fitar (o que se torna um elemento essencial na história lá para a frente no filme).
Os vilões temáticos também são engraçados - a gangue da Disco, os frat boys, por aí fora.

Os líderes dos Disco Boys, Tony P e Tony C. Sim, o da esquerda é o Eddie Izzard.
 
 
Os diálogos têm os seus altos e baixos, é verdade.
As tiradas pseudofilosóficas do Sphinx por vezes são um bocado chochas, mas algumas estão muito bem conseguidas, como "Numa luta tens que usar todos os teus membros, tal como o polvo que toca bateria" ou "Somos o número um! Todos os outros são número dois, ou então números abaixo".
Para compensar os trocadilhos fáceis do Blue Raja com a palavra "Fork", temos bocas como "Vão por ali, vamos triangular a posição" a quem alguém coloca a questão "Equilátero ou isósceles?".
E a minha troca favorita de todas:
Mr. Furious: "Isso é porque o Lance Hunt é o Captain Amazing!"
Shoveler: "Lá estás tu. Não comeces com isso outra vez. O Lance Hunt usa óculos, o Captain Amazing não usa óculos."
Mr. Furious: "Ele tira-os quando se transforma."
Shoveler: "Isso não faz sentido nenhum. Assim ficava sem ver nada!"
 
Visualmente, o filme está bem conseguido sem ser nada de transcendente, com efeitos visuais eficientes que se aguentam bem 15 anos depois; numa nota pessoal, não consigo deixar de olhar para a Champion City e lembrar-me da Gotham City do Tim Burton.
 
E um aspecto em que acho que a produção também se esforçou e que passou ao lado... os heróis rejeitam armas de fogo e outras armas potencialmente letais, o que é um toque simpático.
 
Se decidirem ver ou rever este filme (partindo do princípio que este spoiler gigantesco não o arruinou), tentem ter em conta que NÃO é um filme sério.
 
É, isso sim, uma maneira divertida de passar um par de horas.

Um dos diálogos que espelha perfeitamente o humor do filme.
 

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Iron Man - Rise of The Technovore

Este filme de animação do Homem de Ferro, "Rise of the Technovore", é algo de invulgar.
Trata-se de uma produção japonesa em parceria com a Marvel, e é, desse modo, um filme com mais de Anime (animação japonesa) do que de animação ocidental.
A história envolve um ataque contra Tony Stark (o Homem de Ferro) por um inimigo misterioso que usa uma bioarmadura com tecnologia que nem Stark conseguia produzir, na altura em que as empresas do herói se preparam para colocar em órbita um satélite de vigilância topo de gama. Nesse ataque, o melhor amigo de Stark, Jim Rhodes (o War Machine) é morto, entre múltiplas outras baixas.
Stark passa a ser perseguido pela SHIELD, que investiga o ataque e quer apurar o envolvimento do herói no mesmo; após um confronto com mandroids numa das suas propriedades, enceta uma fuga para tentar descobrir a identidade do seu atacante misterioso, passando a ser caçado por dois agentes de topo (os heróis Hawkeye e Viúva Negra) e procurando o apoio do vigilante Punisher.
Posteriormente consegue descobrir quem o atacou (sendo que o atacante tem uma relação importante com o passado de Stark - e que é paralela à sua versão na BD) e ainda mais, o plano desse inimigo, que, a ser concretizado, poderá destruir a civilização como a conhecemos.
O elenco de heróis do filme... falta só o Nick Fury
Bom, tentei não revelar demasiado da história; passo então a analisar alguns dos aspectos do filme.
Como referi, o filme é essencialmente um Anime, e tal vê-se desde o início. A estética é típica dos filmes japoneses (embora o design dos personagens seja uma amálgama do material de origem da BD americana e dos filmes do universo cinemático da Marvel, mais concretamente os do Homem de Ferro e dos Vingadores), o que é muito patente no inimigo misterioso de Stark e no seu quartel e no conflito final do filme (com aspectos conceptuais que me faziam recordar, à cabeça, os filmes e série do Ghost in the Shell e a colecção de curtas Animatrix).
Homem de Ferro em versão Anime.
A história, embora pudesse perfeitamente ter sido criada por americanos, tem alguns momentos de reflexão  sobre tecnologia que envolvem alguns conceitos filosóficos, especialmente no discurso do vilão, o que a torna mais oriental.
A inclusão de múltiplos elementos visuais retirados dos filmes da Marvel fazem pensar que o filme será parte desse universo cinemático. Provavelmente, não oficialmente.
Onde senti mais falhas foi nos diálogos do protagonista - creio que tentavam adoptar em vários momentos a pseudo-imaturidade patente nos filmes, mas sem grande sucesso. Os restantes diálogos não estão mal conseguidos, especialmente os do vilão e os do Punisher. Ainda aqui, os actores de voz apenas conseguem um trabalho competente, mas sem grande brilho (refiro-me aos actores da versão em inglês, que foi a que eu vi); provavelmente os da versão japonesa transmitiriam mais entusiasmo. Mesmo assim, iria ser algo irreal ouvir o Homem de Ferro a gritar em japonês...
O filme é, em suma, uma abordagem diferente por orientais de um personagem ocidental, abordagem essa que se torna interessante, apesar de poder causar alguma estranheza...
O vilão. Um personagem que não destoaria em histórias nipónicas
tais como as da série Evangelion.

sábado, 13 de julho de 2013

Wanted

Wanted, de Mark Millar e J.G. Jones, é uma BD do género super-heroístico... mas com a antítese do género. É uma BD sobre super-vilões.
 
Conta a história de Wesley Gibson, um verdadeiro choninhas, abandonado pelo pai em bebé e que é pisado por todos, que vive com uma namorada adúltera que fornica com toda a gente menos com ele, resignado com uma existência vazia.
 
Um dia, após ser abordado por uma estranha pistoleira, descobre que é filho de Killer, um super-vilão que era o maior assassino de todos os tempos, até ser abatido à traição.
 
Mas, mais ainda, descobre que o mundo é governado secretamente por super-vilões, associados na "Fraternidade", que em 1986 uniram forças para destruir todos os super-heróis, apagando a sua existência do mundo (os sobreviventes nem sabem que foram heróis em tempos). A partir daí dominam o nosso mundo (e atacam outras Terras noutras dimensões e realidades paralelas só por diversão).
 
Como Wesley é o herdeiro de Killer, e não só vai herdar o património do pai como herdou os seus poderes (basicamente, conseguir matar tudo o que quiser), inicia a sua jornada num mundo de violência gratuita e crimes que ficam impunes, com vista a assumir o lugar do pai, permitindo-lhe cortar (ou matar) os laços com a sua vida antiga e vingar-se de todos aqueles que o afrontaram, ou de algum o modo o aborreceram. É treinado por Fox (a vilã que o contactou inicialmente) e integra a "família" do Professor Solomon Seltzer, o vilão supergénio que controla a América. O resto da história ganha proporções mais de história policial do género "mafiosos", com a guerra entre as "famílias" de vilões (cada qual controla um continente), motivadas por vinganças e querelas sobre manter a existência da Fraternidade em segredo ou não.
 
Trata-se de uma BD bastante violenta (algo a que Millar nos tem habituado com outros títulos, especialmente os da série Kick-Ass/Hitgirl), mas que não deixa de ter algum humor bem conseguido, particularmente nas alusões a heróis/vilões mainstream, e mesmo às suas representações no mundo real (como a dos actores que faziam de detective kitsch e sidekick adolescente, uma piscadela de olho à série do Batman dos anos 60). Curiosamente, talvez não da maneira mais correcta (ou politicamente correcta), também serve para reflectir um pouco na evolução da nossa sociedade de consumo e nos valores progressivamente mais vazios da mesma...
 
Numa última nota, esta mini-série foi adaptada ao cinema num filme homónimo mas com alterações radicais no enredo, especialmente no que toca à Fraternidade - nessa versão não há super-vilões nem super-heróis, apenas uma sociedade secreta de assassinos com super-reflexos associados à adrenalina e que tentam dirigir os destinos do mundo eliminando personagens que são ditados nas malhas de um tear... enfim. Basicamente, mantém apenas a premissa de um totó cujo pai era um manda-chuva numa sociedade underground que interfere nos destinos da humanidade e que assume o papel dele após a sua morte. Essa versão vale mais a pena pelas sequências de acção. E até é giro ver as "curve bullets" - balas com efeito.
 
Capa do TPB da edição portuguesa pela
BdMania

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Captain America (1990)

Nos tempos que correm, a tecnologia de efeitos visuais, especiamente os gerados em computador, permite adaptar qualquer super-herói ao cinema, com resultados visualmente credíveis (o resto do filme é que por vezes nem muito...).


Detalhe da capa do DVD. Visto assim dá uma primeira
impressão de que se trata de um filme de jeito...
Nem sempre foi assim, é claro; antigamente os efeitos visuais eram a maior limitação à criação de um filme decente de super-heróis. A versão cinematográfica do Capitão América de 1990, contudo, é um exemplo de filme em que os efeitos visuais fracos são o menor dos problemas...
 
 
 
Passo a explicar:
 
O filme começa na Itália fascista de 1936, em que um ajuntamento de Italianos e Nazis captura um miúdo que supostamente é um génio só porque toca piano muito bem.
Levam o puto de rastos para um laboratório secreto e tremendamente escuro (como é, de resto, metade do filme, sendo que a outra metade é aparvalhadamente clara e desbotada) onde estavam a fazer experiências em ratos, com um processo secreto que os torna duas vezes mais fortes e mais inteligentes, ao mesmo tempo que a pele deles fica vermelha, estalada e sem pêlos (tipo "carne viva").
Aplicam o processo ao miúdo, o que faz com que a cientista chefe do projecto e criadora do processo de transformação fuja, roída de remorsos.

E para onde é que ela vai? Para os EUA, onde nos sete anos seguintes recria o processo, desta vez sem estragar a pele das cobaias. O processo é então aplicado ao jovem Steve Rogers, um suposto deficiente devido à poliomielite e cuja deficiência se manifesta, basicamente, por mancar quando corre, numa maneira reminiscente dos "Silly Walks" dos Monty Python. Para fazer jus à história tradicional, mal o jovem é convertido num super-atleta, a cientista é assassinada por um espião, e como sempre, todos os detalhes do processo estavam na cabeça dela, pelo que o Capitão América é o primeiro e último super-soldado.

O Caveira Vermelha italiano, a sorrir
para a foto. Que simpático.
O Capitão é enviado para uma base inimiga para impedir o lançamento de um super-míssil contra Washington; nessa base enfrenta o super-vilão... Caveira Vermelha. Ou talvez se devesse chamar Cranio Rosso, dado que o famoso vilão Nazi neste filme é... sim, o miúdo italiano. Das várias liberdades tomadas nesta adaptação (algo que é sempre expectável, admito), esta é particularmente atroz. O vilão, mais habituado aos super-poderes do que o herói, consegue derrotá-lo e amarrá-lo ao míssil, que é lançado contra a Casa Branca, não sem perder a mão esquerda no processo (pelo que fica a gritar como uma menina...).
 
 
O Capitão consegue desviar o míssil no último momento, ressaltando de Washington para o Alaska, onde se despenha e fica congelado. É fotografado por um miúdo atónito que cresce para se tornar o Presidente do EUA, e grande adepto de políticas ecologistas (sendo que um Presidente ecologista dos EUA é talvez o ponto mais inverosímil do argumento).

O Caveira Vermelha restaurado. Consegue
ser mais assustador que a versão anos 30/40.
Em 1990, o Capitão é encontrado e descongelado por cientistas Alemães que se encontravam numa base no Alaska e foge para os EUA. Inicialmente encontrado por um amigo do presidente, pensa que tudo é uma armadilha Nazi, até porque é atacado pela filha do Caveira Vermelha. Este último fez um monte de cirurgias plásticas até parecer humano outra vez, pôs uma prótese a substituir a mão amputada e dirige um cartel terrorista com a ajuda da filha; os terroristas são na maioria italianas todas vamps e com sotaques tão falsos como as orelhas do Capitão América (nota: para quem não sabe, não conseguiam adaptar a máscara de modo a que as orelhas do actor saíssem correctamente pelos orifícios próprios, pelo que optaram por usar orelhas de plástico coladas dos lados).
 
O Presidente, durante uma cimeira em Roma, é raptado pela organização do Cranio Rosso (desculpem, Caveira Vermelha), que agora usa essencialmente o nome Tadzio Santis, o seu nome original; este quer controlar o Presidente de modo a que ele lhe entregue o poder nos EUA (e também que desista das suas ofensivas políticas ecologistas). O Capitão salta para a acção e vai até Roma. Acaba por encontrar a fortaleza do vilão, e depois de algumas cenas de tiroteio e pancadaria fraquitas, com muitos saltos e piruetas (não esqueçamos que o herói é um Super-Atleta), lá consegue atirar o Caveira para fora da fortaleza de modo a esborrachar-se alegremente nuns rocheros, e impedi-lo de detonar uma bomba nuclear que iria matar 70 milhões de pessoas (ou algo do género).

Em resumo: um filme que mutila alguns aspectos essenciais do personagem, com maus actores e com bons actores em maus papéis, com imagem ou muito escura ou muito clara (que em ambos os casos serve para ocultar a desgraça que o filme é) e com músicas lamechas a alternar com banda sonora que se esforça por ser heróica, mas sem o conseguir.
 
Ainda assim, nem tudo é mau. Este filme ensina-nos alguns factos muito interessantes: fitas magnéticas de 1936 mantêm a qualidade do som inalterarada até 1990 (CDs, DVDs e Blu-Rays para quê?!), mesmo com o gravador todo espatifado; antes do controlo paranóico nos aeroportos era perfeitamente possível passar com um escudo metálico na bagagem de mão (pelo menos o Capitão levou o dele para Itália num vôo normal); a tecnologia de próteses de 1990 era melhor que a actual (o Caveira usava uma mão de plástico da mesma maneira que usava a de carne e osso); é perfeitamente possível despistar 2 Porsches com um Fiat 500. O filme mostra ainda outras pérolas, mas estas são as minhas favoritas.
 
Uma curiosidade: o actor principal, Matt Salinger, é o filho de J.D. Salinger, o famoso escritor de "Catcher In The Rye". É óbvio que o filho não partilha a obsessão por perfeição que o pai tinha...
 
Um filme que ensina uma série de lições sobre o que NÃO fazer numa película do género.
 
Um ar tão apatetado como o filme em geral...
 

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Hulk: Gray

Um facto engraçado sobre o Hulk que nem toda a gente sabe é que, antes de ficar famoso como "Jade giant", o Hulk era originalmente cinzento.
Antes de ficar verde...
E cinzento foi a cor com que apareceu no seu #1, em 1962. Contudo, problemas com a impressão faziam com que o cinzento fosse uma cor difícil de compor, aparecendo ao longo da revista com outras cores (inclusivamente verde), o que motivou a mudança de cor a partir do 2º número, tendo-se optado pelo verde.

No universo BD da Marvel, a mudança de cor foi explorada como sendo um fenómeno relacionado com a psique de Bruce Banner (o que motivou alguns regressos à cor original em dadas ocasiões), o que também foi usado para explicar diferenças na força e no comportamento do personagem.
 
 
As capas originais da série.
Hulk: Gray, da dupla Jeph Loeb/Tim Sale (que produziu outras mini-séries famosas na Marvel, tais como Spider-man: Blue e Daredevil: Yellow, bem como na DC - Superman for All Seasons e Batman: The Long Halloween), é uma mini-série em 6 fascículos que reconta os primeiros dias após a transformação inaugural de Banner em Hulk.
 
 
A história é contada como uma série de flashbacks numa sessão terapêutica "de emergência" entre Banner e o Dr. Leonard Samson, outro super-herói (e psiquiatra), e inclui uma série de episódios que Banner nunca contara a ninguém, tal como o primeiro encontro "secreto" entre o Hulk e o Homem de Ferro, que o Hulk julga ser um robot, ainda antes de os dois juntarem forças na equipa original dos Vingadores; temos ainda as primeiras interacções com o elenco clássico das histórias iniciais do Gigante: Betty Ross, Rick Jones e, claro, o General "Thunderbolt" Ross e as Forças Armadas. 
 
Hulk vs. Homem de Ferro. O primeiro enxerto.
Os vários eventos vão sendo, desta forma, comentados em fundo pela dupla Banner/Samson, os quais analisam esses factos e tentam encontrar significados menos óbvios nas acções dos vários personagens, sempre com alguma possibilidade de as memórias não corresponderem 100% à realidade, o que torna a história mais interessante.
A escrita de Loeb é bem conseguida (sendo os diálogos de fundo a minha parte favorita) e devidamente acompanhada pela arte de Sale, que consegue transmitir muito através de desenhos simples.

Trata-se assim de uma série em que a equipa Loeb/Sale faz aquilo em que é excelente: um recontar de momentos antigos da vida de um herói, de forma intemporal, como de resto resulta a mistura de elementos estéticos típicos da década de 60 - altura em que o personagem se estreou - com elementos modernos - miras laser, helicópteros de ataque contemporâneos da série (datada de 2003), e que acompanha em estilo as outras séries de "cores" da Marvel, que acima referi.
Capa da edição Hardcover.