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Neste blogue iremos encontrar (ou reencontrar) pedaços da imaginação e criatividade humana nas mais diversas formas e feitios - Livros, Banda desenhada, Cinema, TV, Jogos, ou qualquer outro formato.

Viajaremos no tempo, caçaremos vampiros e lobisomens, enfrentaremos marcianos, viajaremos até à lua, conheceremos super-heróis e muito mais.

AVISO IMPORTANTE: pode conter spoilers e, em ocasiões especiais, nozes.


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segunda-feira, 28 de julho de 2014

Days of Future Past


A propósito do filme X-Men: Days of Future Past, de Bryan Singer, que andou recentemente nos cinemas, apeteceu-me rever o material de origem, a história homónima dos X-Men, originalmente publicada em Uncanny X-Men #141 e #142 e em que o filme foi inspirado.

E digo "inspirado", porque acaba por ter tantas diferenças que não se pode dizer ser uma adaptação directa. Também não pretendo estar a fazer uma comparação muito detalhada, vou antes falar da história de BD (OK, apontarei algumas diferenças) e quem quiser que a compare mais aturadamente com o filme.

Então, para situar:
Capa do número 141. Uma das capas mais imitadas de sempre.
O ano era 1981 e os X-Men atravessavam uma fase complicada, às mãos de Chris Claremont e John Byrne, que estavam a revolucionar a equipa mutante. Ainda mal recompostos dos eventos da Dark Phoenix Saga, em que tinham (aparentemente) perdido a Jean Grey de vez, e com o abandono recente da equipa por parte do Cyclops, a equipa era então liderada por uma ainda relativamente pouco experiente Storm, tendo como restantes membros Wolverine, Colossus, Nightcrawler, Angel e a caloira Sprite (o nome de código de Kitty Pride antes de se tornar Shadowcat).

Esta última é o ponto fulcral da história, já que recebe a sua consciência vinda do futuro, uma vez que é o único membro da equipa que ainda não tem treino de resistência psíquica (ao contrário do filme, em que é Wolverine quem dá o salto para trás). Assim, Kitty recebe a sua mente futura, numa troca de consciências, e passa a ser Kate, o nome pelo qual iria responder no então longínquo ano de 2013, altura em que se passa a outra parte da história.
E é um 2013 muito distópico: os EUA estão controlados pelos robôs Sentinelas, que se preparam para tentar estender o seu domínio ao resto do mundo, o que a acontecer, irá desencadear um armagedão nuclear, já que o resto do planeta não tem intenções de ficar sob o controle deles.
E como chegaram as coisas a esse ponto? Em 1980 (ano em que se passa a história), a nova encarnação da Irmandade de Mutantes, liderada por Mystique, assassina um senador, Robert Kelly, que pretendia impôr legislação restritiva à liberdade dos mutantes, fazendo dele um exemplo (algo semelhante ao que Mystique queria fazer no filme, assassinado Bolivar Trask). Contudo, o seu plano saiu pela culatra e tudo o que conseguiu foi a reactivação dos Sentinelas, que passaram a caçar não só mutantes, como eventualmente todos os outros superseres, que são levados praticamente ao extermínio, estando os sobreviventes confinados a campos de concentração (de onde Kate é lançada para o passado, num plano fomentado por Magneto, nessa fase aliado dos X-Men sobreviventes).
"Todos morrem". Dramáticos como
sempre...
Mas não só, todos os humanos com potencial para gerar mutantes são também supervisionados e impedidos de procriar; numa extrapolação da sua programação inicial, os Sentinelas resolveram que a melhor maneira de levar a cabo a erradicação mutante era assumir o controlo dos EUA e, mais tarde, dos restantes países, o que levou ao ponto onde começa a parte futura da história. Alguns países já estão a ter problemas (implicitamente) como é o caso do Canadá, onde têm um Exército de Resistência que conta com a participação do Logan futuro.

A história passa-se então em duas frentes: 1980, em que os X-Men protegem o senador, e 2013, em que os mutantes sobreviventes tentam destruir um quartel dos Sentinelas e protelar o eventual conflito mundial.
E, embora a Irmandade seja derrotada e o senador Kelly seja salvo, mesmo assim o dano foi feito, terminando a história com o governo americano a ponderar soluções para o "problema mutante"... Restando apenas esperar que as acções dos X-Men tenham sido suficientemente significativas para mudar a história para melhor. 

Este story arc, embora curto, teve bastante impacto, especialmente por criar o "futuro dos Sentinelas", que serviu da base a diversas outras histórias nas sagas dos X-Men (e não só), dando ênfase ao recém-criado senador Kelly, introduzindo a personagem de Rachel Summers e abrindo caminho à criação de outros, como Nimrod e Bastion.
É também difícil não comparar esta história à da saga Terminator: em ambas temos personagens que fogem a um futuro distópico (ou mesmo pós-apocalíptico) em que máquinas controlam o seu meio e tentam erradicá-los, fazendo uma viagem atípica e tentando salvar personagens chave que modificam a história.
Há mesmo páginas inteiras na net a discutir se os comics influenciaram o filme ou se é só uma lenda urbana.

A edição brasileira onde li a história
pela primeira vez.
Nos EUA, a história foi republicada várias vezes em separado ou em antologias (a mais recente uma edição omnibus com todo o material do "futuro dos Sentinelas"); em Portugal chegou em versão brasileira através da editora Abril (inclusivamente na forma de um "X-Men Especial" a que tive o prazer de deitar as mãos via alfarrabista há muitos anos, e onde fazem a comparação com o Terminator, apesar de na época eu ficar momentaneamente baralhado por não saber o que era "O Exterminador do Futuro"), e faz também parte do calendário de lançamentos da série de BD da Marvel da colecção do jornal Público, a ser editada este ano.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Leonard McCoy, Frontier Doctor

A IDW, uma das editoras de renome da actualidade no campo da banda desenhada, está no activo há alguns anos. Uma das primeiras séries lançadas pela editora, 30 Days of Night, grangeou-lhe fama, mantendo-se ainda hoje no seu catálogo de publicações. A editora cresceu, adquirindo direitos sobre várias séries famosas, tais como G.I. Joe e Transformers, e outras de culto, como Mars Attacks e Doctor Who. O franchise Star Trek é mais um exemplo.
 
2º número
1º número
Esta mini-série em 4 números, da autoria de John Byrne, retrata algumas das aventuras de Leonard McCoy, também conhecido como "Bones", o famoso médico da nave Enterprise, a solo.
 
Bem, a solo, não totalmente. Bones é acompanhado por outro médico, o jovem Jon Duncan e a Andoriana Theela. Juntos, vão viajar por várias partes da galáxia e ao longo da série, enfrentam várias ameaças e problemas (de índole médica ou não), incluindo uma civilização de clones que lutam eternamente entre si, um planeta cuja vegetação é muito mais do que aparenta e mesmo um vírus inteligente, cujo tratamento passa por... conversar com os infectados.
 
3º número
Nessas andanças, surgem, como personagens de fundo, múltiplas caras conhecidas - Jim Kirk, agora almirante, e a quem Bones relata - sob a forma de manuscrito - as suas aventuras; Scotty, o engenheiro; Christine Chapel, a antiga enfermeira, agora com treino médico; entre outros.
 
4º e último número - em homenagem a
Rembrandt, com a sua "Lição de Anatomia"
Cronologicamente, a série passa-se no período após a série original (a mítica missão de cinco anos que só durou três temporadas) e o primeiro filme. Byrne aproveita assim para usar uma estética um pouco mais "madura" do que o aspecto exagerado da série (de resto, também o conseguiu em parte na saga sobre os Romulanos, também publicada pela IDW) e mais baseada no primeiro filme.
 
Aliás, Bones aparece, basicamente, nos mesmos preparos com que foi "recrutado" no início desse mesmo filme, com barba comprida e tudo. O personagem mantém o seu carácter honesto e contundente do costume, embora não tão mal-disposto - como o próprio Kirk afirma, "Se ele não tem cuidado ainda vamos pensar que ele se está a divertir".
 
Numa altura em que o franchise Star Trek se encontra a ser reformulado de raiz, já com dois filmes na fase reboot, esta série vale a pena para revisitar um dos personagens mais emblemáticos, pela mão de Byrne, também ele um criador com um estilo muito próprio e um nome lendário no meio.
 
A versão original do "Bones Barbudo", em Star Trek - The Motion Picture






domingo, 19 de maio de 2013

Man of Steel, de John Byrne

O ano era 1986. A DC Comics iniciara, recentemente, uma reformulação do seu multiverso através do evento Crisis on Infinite Earths (Crise nas Terras Infinitas).

A ideia era unificar os vários universos e as várias versões dos super-heróis, alguns dos quais acumulavam décadas de continuidade, muitas vezes contraditórias, e formar um universo novo e coeso, também de modo a facilitar a adesão de novos leitores, tentando simultaneamente não alienar os leitores de mais longa data.

O Super-Homem, naturalmente, foi um dos visados, e foi atribuída a John Byrne a tarefa de reimaginar o herói, adaptado aos anos 80, voltando à sua origem mas mantendo o que fazia do herói uma lenda.

E Byrne assim fez, nesta mini-série "Man of Steel", que depois teve continuidade nas publicações regulares do personagem. Ao longo de 6 números, Byrne recriou o personagem de acordo com os novos cânones da DC Comics.

A origem
Assim, no nº 1, temos o retrato do fim do planeta Krypton, com Jor-El, pai de Kal-El (o nome kryptoniano do nosso herói) a preparar uma solução de último recurso para salvar o filho - enviá-lo para um planeta retrógrado com uma população que os kryptonianos consideram bárbara... o planeta Terra, onde o bebé iria adquirir, graças ao sol amarelo, poderes que o iriam tornar um líder de homens, um semi-deus. Vemos a chegada da nave (na realidade, uma matriz de gestação com um propulsor), o nascimento de Kal-El na Terra e a adopção por um casal, Jonathan e Martha Kent, que o criam como seu filho, Clark Kent. Jonathan, quando Clark atinge a maturidade, revela-lhe a sua origem alienígena.
Anos mais tarde, Clark viajou pelo mundo a tentar fazer uso dos seus poderes para ajudar a humanidade, mas após ser exposto quando impediu a queda de um vaivém em Metrópolis, o que levou a que toda a gente "quisesse um pedaço dele", fugiu, num misto de horror e repulsa pelo comportamento dos outros, acabando por retornar a casa dos pais.
Surge, então, a ideia de criar uma identidade dupla - uma identidade heróica, em que Clark usa um fato colorido feito pela mãe, e que lhe permite usar os seus poderes a ajudar a humanidade sem necessitar de se esconder, e outra, uma identidade civil, que lhe permite viver entre os homens e levar uma vida normal.



Super-herói em início de carreira...
No nº 2, o Super-Homem começa a aparecer mais frequentemente em Metrópolis, a impedir crimes, a salvar vidas, entre outros feitos heróicos. A jornalista Lois Lane, uma das pessoas que ele salvara no vaivém, no número anterior, tem um "acidente", caindo à agua no interior do seu carro, levando a que seja salva pelo herói, com quem tem uma longa conversa... que ela utiliza para escrever um artigo sobre o Super-Homem, algo com potencial para ser a entrevista do século. Ou assim ela pensa, pois quando chega ao seu jornal, o Daily Planet, o seu editou já tem uma entrevista completa com o super-herói, escrita por um jornalista recém-chegado. O nome do jornalista? Clark Kent.

Primeiro encontro entre duas lendas

No nº 3, temos o primeiro encontro entre o Homem de Aço e Batman, em termos pouco amigáveis. O Cavaleiro das Trevas também foi alvo de um recontar da origem, no Batman: Year One de Frank Miller, e estava a ser redefinido como um personagem mais escuro. Juntos conseguem capturar a ladra Magpie; nesta fase o Batman ainda era um iniciante (tal como o Super-Homem), e apenas conseguiu que o Kryptoniano não o tentasse capturar mostrando-lhe ter em seu redor um campo de forças que, caso o Super-Homem o tentasse agarrar, faria explodir uma bomba que Batman tinha posto num inocente. O Homem de Aço alia-se contrariado ao Cavaleiro das Trevas, que no fim revela que a tinha colocado a bomba... em si próprio. Nesta fase, ainda estavam longe de desenvolverem a amizada que os viria a definir como "the world's finest".

Um novo Luthor, tão perigoso como antes
No nº 4 temos a primeira grande aparição de Lex Luthor. Para trás fica o "cientista louco" apostado em derrotar o Super-Homem. Nesta versão, Luthor é um empresário de renome, extremamente rico e poderoso, e sempre sedento de mais poder. Além disso, é obcecado por Lois Lane e não lhe dá um minuto de sossego.
Nesta história, Lex encena um ataque terrorista ao seu barco durante uma festa de gala, apenas para atrair o Homem de Aço, de modo a que este salve o dia (ou melhor, a noite). No fim, tenta comprar os seus serviços, apenas para ter o herói a prendê-lo quando descobre a artimanha. E fica criada uma inimizade mortal.

O Super-Homem enfrenta uma versão distorcida
de si próprio
No nº 5, o Super-Homem começa a ser vítima de ataques encobertos patrocinados por Luthor. Num deles, o vilão consegue que clonem o herói. Contudo, e dado que não é do conhecimento público que o Super-Homem é um alienígena (a crença dos cientistas de Luthor é que o Super-Homem é mais uma humano com super-poderes), o processo corre mal e o clone, um "bizarro", como Luthor lhe chama, entra em degeneração muito rapidamente. Ainda assim, e tendo herdado as memórias do Super-Homem junto com os seus poderes, tenta, de um modo grotesco e desajeitado, tomar o seu lugar, o que leva a um confronto entre os dois e à destruição do clone. É a primeira aparição de uma nova versão do Bizarro, um dos inimigos tradicionais do Super-Homem. Mais tarde, viriam a surgir outras, mas isso é outra história... Numa piscadela de olho à continuidade antiga, a armadura espacial que o 1º atacante usa contra o Super-Homem é extremamente semelhante à armadura de combate clássica de Lex Luthor, a mesma que ele usava a partir das histórias antigas da sega de Lexor, o mundo governado por Luthor.

Mais revelações sobre a origem
Finalmente, no nº 6, a título de fecho da série, temos o regresso de Clark a Smallville, onde contacta com o espectro de Jor-El, o seu pai, e fica a conhecer o seu legado Kryptoniano. É um conto sobre o conflito entre a sua origem alienígena e a sua humanidade, em que o Super-Homem abraça em definitivo a última, dado que, mesmo concebido noutro mundo, foi na Terra que nasceu (a nave que o trouxe viajou com ele ainda em forma fetal) e foi a Terra que sempre foi o seu lar.

Como expliquei, nesta série as aventuras do Super-Homem recomeçaram do início, e com "regras" novas. A sociedade Kryptoniana passa a ser retratada como fria e estéril (o próprio Jor-El, ao admitir que ama a esposa, é uma espécie de excêntrico), e Kal-El não nasce em Krypton, como anteriormente, para ser enviado enquanto bebé - é enviado ainda durante a sua gestação (dado que os Kryptonianos abandonaram a reprodução natural) e nasce na terra. Os poderes do herói são "reduzidos" para o tornar mais humano e menos uma espécie de deus; aliás, aqui não há dúvida que o herói é um Clark Kent mascarado de Super-Homem e não o contrário. Os vilões da série passaram a ser mais modernos, sendo o mais notório Luthor, na sua encarnação magnata-criminoso. Curiosamente, temos um Luthor inicialmente com cabelo a ficar progressivamente mais calvo. Deixa de haver a antiga ligação Luthor jovem/Superboy que levou ao acidente em que ficou careca, porque deixa de haver "Superboy" - Clark só assume a sua identidade de herói em adulto. Outra das novas regras da DC é que o Super-Homem é, de facto, o único sobrevivente de Krypton, eliminando personagens como a Supergirl. Muitos dos personagens eliminados, contudo, viriam a ser reintroduzidos mais tarde em versões não Kryptonianas.

Mais tarde, com vários retcons e reboots parciais muita desta continuidade foi alterada de novo (incluindo o aparecimento de uma Supergirl Kryptoniana); ainda assim, a influência desta série manteve-se ao longo de mais de 20 anos, até à nova reformulação maciça do universo DC com as séries The New 52.