De origem norueguesa, este é um filme bastante curioso.
Filmado sempre do ponto de vista de uma câmara portátil, de modo a simular uma espécie de documentário, mais concretamente, uma reportagem para um projecto de um grupo de jovens aspirantes a jornalistas, não pode deixar de ser comparado a outro título realizado nos mesmos moldes, o
Blair Witch Project.
Contudo, as semelhanças não vão muito para além do formato. Esta obra, (
Trolljegeren no original), embora conte com os seus momentos mais pesados, é muito menos sombria, tendo mais de filme de aventura fantástica do que propriamente de horror. E um outro toque de humor.
Usando como pano de fundo os Trolls, talvez os seres mais emblemáticos da mitologia escandinava (se estavam à espera de algo sobre a malta que gosta de importunar os outros, especialmente no uso da internet, podem ir embora agora), mostra então as aventuras do referido grupo, que resolve fazer uma reportagem sobre o aparecimento em barda de animais mortos misteriosamente em locais mais selvagens na Noruega.
Começando com uma série de entrevistas a indivíduos que acreditam tratar-se de caçadores furtivos e que querem levar os supostos criminosos à justiça, rapidamente passam a focar um indivíduo misterioso, com ar de caçador (furtivo, se quisermos) que aparece sistematicamente num jipe bastante danificado, aparentemente por animais selvagens de grande porte e que rejeita todas as tentativas de contacto com os jovens. Naturalmente, só lhes desperta mais interesse e eles começam a segui-lo (mais ou menos) discretamente.
Uma bela noite, descobrem o que o homem anda a fazer - caçar Trolls, o que descobrem da pior maneira, já que dão de caras - ênfase no plural - com um belo exemplar com três cabeças (que mais tarde descobrimos que apenas tem uma a funcionar, as outras são para exibição).
O caçador tem sucesso em deter o bicho - atraindo-o até ao jipe, altura em que o bombardeia com holofotes ultravioleta e o monstro se transforma instantaneamente em pedra (característica típica dos Trolls nas histórias norueguesas). A partir daí, nada que picaretas, um martelo pneumático e alguns explosivos não resolvam.
Sucede que o caçador, na realidade um agente governamental, anda a tentar perceber porque é que os Trolls andam descontrolados a atacar a fauna local, estando incumbido de conter a situação. Pelo caminho, aparece uma veterinária que adianta a hipótese de se tratar de uma forma de raiva; a mesma explica ainda que a exposição dos Trolls à luz solar causa calcificação instantânea por uma espécie de hipermetabolismo da vitamina D, que resulta em petrificação... ou em explosão (para mim trata-se de pseudociência perfeitamente escusada e um momento menos feliz do filme, e teria ficado satisfeito apenas sabendo que os Trolls viram pedra à luz do dia
porque sim, afinal são criaturas mitológicas...).
A partir daí temos alguns encontros interessantes: um Troll maneta que vive (apropriadamente) sob uma ponte e a quem o caçador tenta colher sangue (levando um enxerto à moda antiga, apesar de ir com uma armadura quase medieval), uma gruta de Reis da Montanha, onde o
cameraman original encontra o seu fim (era baptizado, e os Trolls cheiravam o sangue cristão...), motivando uma substituição por uma operadora nova e, finalmente, a sequência final.
Essa sequência é um dos pontos altos do filme. Assim como o Troll em questão, tão grande que o jipe tem que andar a desviar-se dos seus pés. E como a filmagem é do ponto de vista do observador... bem, dá para ter a ideia. Além de que os urros de dor (o Troll estava doente) na paisagem deserta gelada são verdadeiramente melancólicos, causando uma sensação de desolação ao conduzir à morte da criatura, ao sucumbir finalmente a um
rocket de ultravioletas (seja isso o que for...), finalmente petrificando e desabando com o próprio peso.
O final do filme, após a morte do último Troll, é um bocado confuso, dando no entanto a entender que os personagens foram capturados pelas autoridades e "levaram sumiço".
Numa nota final engraçada, temos a admissão acidental numa entrevista por parte de membros do governo de que os Trolls existem e estão a dar problemas.
Uma abordagem original à mitologia nórdica, com uma boa produção (os Trolls parecem mesmo saídos das ilustrações tradicionais) e à qual vale a pena, definitavamente, dar uma olhada. O único sinal de preocupação - consta que Hollywood tem um
remake na calha. Provavelmente com Trolls na Califórnia ou uma parvoíce do estilo... Prefiro nem pensar.